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sábado, 15 de julho de 2017

Cinco meses depois e continuo viva

Já se passaram cinco meses desde o meu último post.

Tentei escrever esse post mentalmente várias vezes, para depois ficar mais fácil quando viesse aqui - em vão. Não sabia o que dizer e nem se havia algo significativo a dizer.

Bom, vou resumir o que aconteceu nesse tempo em que estive ausente: 

A cirurgia em fevereiro correu bem. Meus pais estavam muito apreensivos; eu estava muito tranquila. Me passou pela cabeça várias vezes que eu poderia morrer na mesa de cirurgia ou por complicações posteriores, mas concluí que, se isso acontecesse, seria um alívio, pelo menos eu não precisaria mais me preocupar com absolutamente nada, o que me dava uma sensação de paz incrível, por outro lado, eu queria sobreviver porque preciso conhecer Tóquio e Praga e também fazer aquela oficina literária em Porto Alegre. Acontece que a cirurgiã, a dra. Beatriz, é excelente, tudo correu bem, e ela vai ser minha médica para sempre - vou precisar consultá-la de tempos em tempos para ver se está tudo bem.

A recuperação da cirurgia foi um pouco difícil, porque fiquei pelo menos umas duas semanas sem conseguir falar nem comer direito (por causa dos pontos na língua, que foi cortada para a retirada do tumor). Agora já estou comendo quase tudo e falando normalmente.

Antes da cirurgia, só lembro de uma médica auxiliar colocando a máscara de oxigênio em mim e da picada do anestesista, depois foi como se eu tivesse morrido por algumas horas. Não lembro de nada. Só lembro que, ao voltar da anestesia geral, em uma sala para recuperação pós-cirúrgica, eu estava literalmente trincando os dentes de frio e com vontade de fazer xixi. Me perguntava por que ninguém me dava mais cobertores (eu estava com um, mas parecia estar completamente nua no Polo Norte) e sussurrei para a enfermeira que precisava ir ao banheiro, ela não entendeu, aí falei: "xixi", ao que ela respondeu que ali não havia banheiro e que me traria a comadre - um tipo de penico grande. Ela baixou minha calcinha descartável, colocou a comadre embaixo do meu traseiro e demorei para fazer xixi ali, por mais que estivesse apertada. Mas uma hora saiu. Que alívio.

Uma semana depois da cirurgia voltei ao consultório da dra. Beatriz e ela disse que eu precisaria fazer 30 sessões de radioterapia "preventiva" e avisou que isso seria muito mais difícil que o período pós-cirúrgico. Confesso que não levei muito a sério, porque o período pós-cirúrgico já estava sendo muito ruim. Não sabia como a radioterapia poderia ser pior. (Mas foi.)

Entre o período de recuperação da cirurgia e o início da radioterapia, tive uma semana sossegada - até comi um hambúrguer no Sujinho quando quase todos os meus pontos da língua haviam caído! E as duas primeiras semanas de radioterapia também foram muito tranquilas, depois as coisas começaram a piorar. Um dia, depois do trabalho, quando fui comer um pão de queijo, parecia que tinham esquecido de colocar sal nele. No dia seguinte, perdi o paladar, o que foi bem bizarro (aliás, até agora, quase não sinto o gosto das coisas - mas, segundo as médicas e dentistas, o paladar vai voltar). Na terceira semana, começaram a aparecer as mucosites na boca e na língua - umas "aftas" que depois ficaram gigantes e muito doloridas, mas a dentista e as médicas já haviam dito que isso aconteceria e era normal -, além de uma dor de garganta que não passava. Depois disso as coisas foram ficando cada vez piores até se tornarem um pesadelo. Tinha dias em que eu não conseguia comer nada e mal bebia água (qualquer coisa que passasse pela garganta parecia uma lâmina da Gilette, sem exageros). A semana mais assustadora foi quando perdi cinco quilos. A médica oncologista que acompanhou meu tratamento receitou corticoides, entre outros medicamentos, para aliviar a dor e para eu parar de perder peso, mas tinha hora em que eu só queria morrer para não sentir mais nada.

Durante o período da radioterapia, que durou quase dois meses, a Yuri me levava para o hospital e depois para a dentista, onde eu fazia sessões de laserterapia, que amenizavam os efeitos da radiação - ou vice-versa: primeiro íamos à dentista e depois ao hospital. As sessões de rádio eram de segunda a sexta, menos nos feriados e quando a máquina quebrava ou dava algum outro problema. 

No fim do tratamento, tinha emagrecido quinze quilos, o que foi ótimo, considerando que eu queria e precisava perder vários quilos mesmo. Foi uma das únicas coisas boas que aconteceram nesse período. Agora me sinto melhor, mais bonita, mais saudável e não "deformada" pelos quilos a mais - quando me olhava no espelho, era assim que me sentia: deformada. E, com isso, também recuperei MUITAS roupas que não estavam servindo, até uma calça 38 (nem acreditei), o que me deixou feliz, pois agora vou ter mais opções do que vestir sem precisar gastar.

Ainda sinto os efeitos da radiação, como um pouco de dor de garganta às vezes e um leve enrijecimento do lado esquerdo do pescoço, perto da cicatriz (como a dra. Beatriz fez um corte para retirar os linfonodos, porque não dava para saber se o câncer da língua havia se espalhado, fiquei com uma cicatriz temporária de uns 20 centímetros que começa atrás da orelha e desce até o meio do pescoço - no fim, os linfonodos estavam limpos, a doença não havia se espalhado). Segundo a médica, depois essa cicatriz vai sumir, mas não posso tomar sol sem protetor solar ou lenço/ cachecol, para não ficar com a marca da cicatriz. Preciso dizer que a dra. Beatriz fez um ótimo trabalho no "acabamento final", deve ter usado alguma técnica de cirurgia plástica, porque a cicatriz não parece uma cicatriz do Frankenstein. Acho que as pessoas se impressionam quando batem o olho no meu pescoço, porque a cicatriz é grande, mas não me incomodo quando me olho no espelho. E se a cicatriz fosse permanente, não ficaria deprimida nem nada. Afinal, cicatrizes fazem parte da vida, certo? Algumas são aparentes, outras, não.

De importante, semana passada formalizei minha saída da editora. Faltam algumas burocracias, mas o principal está feito. Me senti grata pelo fim de um ciclo, e também feliz e aliviada, porque agora vou ter um tempo para mim, para poder pensar, fazer o que quero, aprender coisas novas, me reestruturar e renascer de alguma forma.

Os últimos meses foram estranhos, como se eu estivesse num mundo paralelo. As pessoas continuavam a viver suas vidas, a fazer o que precisava ser feito, trabalhar, estudar, se divertir, namorar, enfim, coisas triviais que compõem a vida de uma pessoa normal, enquanto eu estava vivendo no meu próprio tempo, sendo irradiada, suportando dores, querendo morrer, querendo viver, querendo parar de sentir, mas consciente de que o que eu estava vivendo naquele momento, mais tempo, menos tempo, seria passado.

Para passar o tempo e talvez para suprir minha fome (por semanas, senti meu estômago roncar várias vezes ao longo do dia e vivi em estado de fome constante, embora não conseguisse comer quase nada), vi muitas séries gastronômicas e documentários relacionados à comida na Netflix. Alguns documentários eram sobre a influência da alimentação na qualidade de vida das pessoas e como a falta de tempo nos faz comer um monte de porcarias industrializadas, basicamente gordura, sal e açúcar, calorias vazias de nutrientes. A partir daí, decidi preparar refeições mais saudáveis e, assim que me recuperei, coloquei esse plano em prática. Também decidi adotar uma alimentação mais vegetariana e comer algum tipo de carne, no máximo, uma vez por semana. Lembrei que quando era adolescente tentei ser vegetariana, mas como era minha mãe que cozinhava, era difícil, parecia "frescura" minha, fora ouvir os absurdos que as pessoas me falavam, que eu ia ficar doente se não comesse carne, que era idiota da minha parte ter dinheiro para comprar carne e não comer carne e coisas desse tipo (fato: a ignorância e a falta de respeito das pessoas não têm limites). Acho que instintivamente, já naquela época, eu sabia o que era melhor para mim. Só que agora é diferente: eu cozinho e posso fazer escolhas melhores. Além da alimentação, agora tenho tempo e ânimo para fazer minhas caminhadas, então estou tentando caminhar todos os dias mais ou menos duas horas por dia. Queria emagrecer mais uns quilos, mas preciso dar um tempo para o meu organismo se recuperar totalmente da radiação primeiro.

Se a minha visão de vida mudou por conta do câncer? Acho que sim. A proximidade da morte me fez pensar mais na vida. E já que continuo viva, vou cuidar melhor de mim e ir atrás do que importa, vou tentar aproveitar o tempo que me resta da melhor forma e ser feliz como for possível. Senti isso tudo como um "chacoalhão" para acordar. Eu estava me esgotando mental e fisicamente por coisas sem sentido, mas agora chega, já entendi, vou mudar a rota - e o ritmo. Vou tentar encontrar o caminho do meio e prestar atenção para não me perder de novo.


9 comentários:

Karen disse...

Oi! Pensei em escrever várias vezes, mas sei lá, fiquei adiando porque achava que talvez não fosse o momento ideal. Fiquei contente em ler seu post, em saber que um ciclo desagradável está se encerrando. Espero que sua recuperação seja rápida, um grande abraço!

Pedro Mattos disse...

Muito pouco tempo atrás te perguntei algo em outro post. Não sabia desse câncer. Te desejo toda a saúde! Não sei muito o que falar agora,mas precisava me manifestar...

Gabriel disse...

Escreva mais! Seus textos são bons!
Caso tenha tempo procure saber sobre o Dr. Lair Ribeiro. Se alimente bem.

Lúcia Harumi disse...

Estamos (família) aliviados e felizes por você. Agora, trabalhe menos, divirta-se mais. Você é muito amada!!! Bjs

João disse...

Você não pode ir embora antes de publicarmos uma estória juntos (depois que for a Praga e Tóquio)
Melhoras pra ti! Afinal viver sem paladar deve ser um saco..

aline naomi disse...

Oi, Karen!

Obrigada pelo recado. Estou me sentindo muito bem agora. Estou tentando retomar uma certa rotina.

Abraço! :)

aline naomi disse...

Pedro Mattos, vi sua pergunta, vou responder já, já.

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Gabriel, obrigada pelo incentivo! Vou tentar escrever com mais frequência (escrever, em geral, me faz bem, mas antes não tinha tempo e/ou disposição).

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Tia, obrigada pelo apoio e amor! De agora em diante pretendo não dar mais preocupações! *risos* Beijos!

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João, não sei se você é um dois Joões que conheço, talvez não, mas seria ótimo escrever alguma história a quatro mãos. :) Abraço pra você e obrigada por ler meu blog.


Scant Tales disse...

BOA SORTE!

aline naomi disse...

Obrigada, Scant Tales!