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sexta-feira, 1 de setembro de 2017

O Afeganistão é logo ali

Uma vez a Tati disse que nossos interesses sempre são desencadeados, em algum momento, por algo externo a nós, que eles não nascem "do nada". Nunca tinha parado para pensar nisso, mas concordo e vou além: é provável que nosso interesse por coisas (ou pessoas) específicas tenha a ver com nossa personalidade inata e esteja latente, só aguardando um gatilho para dar as caras, tipo um "tapa na pantera" (alguma coisa, , e a pantera desperta - e nunca mais morre). Só isso explica por que cada um tem seus próprios interesses e paixões.

Tenho muitos, quase infinitos, interesses, entre eles, o Paquistão - provavelmente despertado quando comecei a ler notícias sobre o Talibã e a biografia da Malala (que é paquistanesa, mas também sofreu quando o Talibã ocupou seu país) há alguns anos, com o "agravante" de eu ter MUITO interesse pelo Irã, que fica lá perto.

Voltando ao Afeganistão, essa semana li Mulheres de Cabul, da fotógrafa inglesa Harriet Logan, além de ter visto três filmes relacionados a esse país, e gostaria de compartilhar.



Nesse livro, há fotos e vários relatos de mulheres e meninas afegãs em duas épocas em que a autora esteve em Cabul: primeiro em 1997, um pouco depois de o regime do Talibã (movimento fundamentalista islâmico) ter tomado o poder, e depois em 2001, quando o regime chegou ao fim, sendo que ela conseguiu reencontrar algumas das mulheres fotografadas em sua visita anterior.

Antes da chegada do Talibã, Cabul era um lugar bastante ocidentalizado e moderno

Os relatos, em geral, são muito angustiantes, pois algumas mulheres não conseguiam ter esperança de uma vida melhor, mesmo após a derrocada dos talibãs.

Durante o regime do Talibã no Afeganistão (entre 1996 e 2001), as mulheres não podiam mais trabalhar, mas muitas precisavam dar um jeito de alimentar os filhos, pois em várias famílias o pai havia sido assassinado; precisavam se cobrir dos pés a cabeça com a burka em lugares públicos (apanhavam dos "legisladores da moral e dos bons costumes" se houvesse mais de 1 cm de pele exposta); as meninas foram proibidas de frequentar a escola; as pessoas não podiam rir publicamente e nem soltar pipa, entre outros decretos absurdos. Li que, por não suportarem tanto sofrimento, várias mulheres se suicidaram nessa época.

Não tenho conhecimento suficiente para afirmar, mas suspeito que pobreza, ignorância e fanatismo religioso sejam a base do Talibã. Tudo isso parece muito distante, mas quando imagino o que aconteceria se todos os pobres-miseráveis-ignorantes-machistas brasileiros se juntassem e fossem guiados por algum maluco-fanático-religioso-tirano-com-delírios-de-grandeza (ou vários) e apoiados por forças militares de países com interesses econômicos no Brasil tomassem o poder, o Afeganistão parece bem mais próximo.


Mulheres de Cabul é interessante porque a autora deu voz às mulheres e meninas afegãs em vez de relatar a própria experiência como fotógrafa.



Esse livro estava na bibliografia sugerida do curso de travel writing, que eu e a Tati do início do post vamos fazer daqui a algumas semanas, ministrado pelo Zizo Asnis, nosso colega do MBA. Aliás, ando vendo vários filmes e lendo outros livros (que estão na bibliografia ou não) com protagonistas viajantes por causa desse curso.

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Esses três filmes valem a pena para quem quer conhecer um pouco sobre o Afeganistão ou para quem gosta de cinema em geral:

A caminho de Kandahar (Safar e Ghandehar), 2001, dirigido pelo iraniano Mohsen Makhmalbaf 


Nafas, uma jornalista afegã refugiada no Canadá, recebe uma carta da irmã que permaneceu no Afeganistão e parte para encontrá-la. Precisa chegar a Kandahar antes do próximo eclipse, pois a irmã escreveu que se suicidaria nessa ocasião. No filme é possível perceber a devastação material e humana causada pelos talibãs e que as pessoas fazem de tudo sobreviver.
Minha cena preferida é quando próteses de pernas são lançadas de um avião ou helicóptero no deserto, próximo a um acampamento improvisado em que pessoas prestam ajuda humanitária, e homens que perderam a perna por terem pisado em minas começam a correr com muletas na direção delas - para mim, uma metáfora de que, apesar de todo o horror vivido pelos afegãos, apesar de o país estar sendo mutilado em todos os sentidos, as pessoas (e o país) estão tentando caminhar com as próprias pernas.


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Mil vezes boa noite (Tusen ganger god natt), 2013, dirigido pelo norueguês Erik Poppe


Rebecca (Juliette Binoche, diva) é uma das fotógrafas de guerra mais importantes do mundo e, no momento em que o filme começa, ela está em Cabul. A cena em que Rebecca fotografa mulheres rezando e depois arrumando o colete com explosivos na mulher-bomba me pareceu inverossímil, apesar de o Talibã como um todo parecer uma ficção de horror. (Será mesmo que uma fotógrafa ocidental conseguiria se infiltrar nesse mundo e registrar essas cenas, que depois seriam reproduzidas no mundo inteiro? Ou será que o Talibã é tão exibicionista que concordaria com isso?) 
Nesse dia, Rebecca é ferida e quase morre quando a mulher se explode em um lugar movimentado. Ao voltar para casa, em algum lugar da Europa, o marido e a filha adolescente estão muito preocupados, parecem não entender e nem aceitar a vida profissional que ela escolheu e só a filha mais nova, ainda criança, não tem noção do que está acontecendo. Sendo assim, a fotógrafa precisa decidir se continua trabalhando e arriscando a vida, produzindo sua arte e reafirmando sua visão de mundo ou se começa a se dedicar a uma vida mais prosaica (sendo uma esposa e mãe mais presente, fazendo compras, cozinhando e tendo um trabalho mais "normal"). 
O filme é inquietante tanto pelas cenas nas zonas de conflito (em outro momento, ela vai com a filha para um acampamento de refugiados no Quênia) quanto porque se Rebecca abrisse mão de sua profissão, uma parte dela morreria e ela se tornaria uma sombra de si mesma.  
Li aqui que o filme é meio autobiográfico; o diretor Erik Poppe também trabalhou como fotógrafo de guerra antes de se dedicar ao cinema.

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Baran (Baran), 2001, dirigido pelo iraniano Majid Majid
[Uma curiosidade: segundo a Wikipedia, "baran", em persa, quer dizer "chuva"]


O filme retrata a difícil realidade de refugiados afegãos em Teerã, capital do Irã, que muitas vezes trabalham ilegalmente, ganhando pouco e sem direitos, para sustentar a si e a família. 
Lateef é um jovem que trabalha na obra de um prédio, fazendo compras, cozinhando e servindo chá e, quando o patrão o troca de lugar com o recém-chegado e misterioso Rahmat, que não conseguia carregar sacos pesados direito, ele fica com raiva.
Depois de um tempo, Lateef descobre que Rahmat, "filho" de um trabalhador afegão que caíra do quarto andar da obra e quebrara a perna, na verdade, é uma garota. Como o pai dela não pode mais trabalhar, Rahmat (na verdade, seu nome é Baran) precisa fazer isso. A partir daí, Lateef sente compaixão - e talvez um pouco de paixão - por ela e passa a protegê-la e ajudá-la. 
A cena final é linda.
***

Caso seu interesse pelo Afeganistão tenha sido despertado agora - , tapa na pantera! -, bem-vindo ao clube, teremos algo em comum.

Às vezes é difícil pensar em países geograficamente longínquos ou até lembrar que eles existem e que pessoas, principalmente mulheres, estão sofrendo nesses lugares. Às vezes não dá vontade de continuar vivendo num mundo assim, mas fingir que essas pessoas são invisíveis não melhora a situação. E que bom que os livros e os filmes estão aí para nos conscientizar e nos devolver a capacidade de sentir compaixão por outros seres humanos.


2 comentários:

Tati* disse...

Nossa, não lembrava que tinha te falado isso... haha
Tbm estou tentando ler uns livros pro curso! Continue escrevendo ;)
Bjos

aline naomi disse...

Hahahaha!
Falou em alguma aula...
Você também, continue escrevendo.
Está um pouco difícil manter a rotina (eu queria ter forças para escrever todo dia), mas em breve as coisas entram nos trilhos.
Beijo!