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domingo, 18 de março de 2018

Carta de Porto Alegre nº 1

Porto Alegre, 17 de março de 2018 - sábado, 23h22

Querida pessoa do outro lado da tela,

vim contar como andam as coisas. 

Por falar em andar, hoje de manhã fui caminhar no parque Farroupilha, que é tipo o parque Ibirapuera, só que decadente e com pedalinhos, e me perdi na ida e na volta, mesmo tendo visto a rota no Google Maps antes de sair de casa. Sou esse tipo de pessoa. Não tenho senso de direção, mas adoro explorar. Hoje a exploração durou duas horas. 

Preciso e vou continuar caminhando todos os dias porque o endócrino que consultei no começo do mês disse que estou obesa e que vou morrer de diabetes se não parar de comer doces. Ok, estou exagerando para efeito dramático, não foi bem isso que ele disse, mas foi o que ouvi. E, no fim das contas, preciso mesmo emagrecer e parar de comer doces.

Durante a caminhada, descobri uma feira livre e um supermercado sem ser Zaffari (Zaffari é tipo Pão de Açúcar, fica sempre uma sensação de que estou pagando mais pelo que as coisas valem), vi uma mulher alimentando cinco ou seis gatos, de várias cores, no que parecia um templo budista (tinha várias estatuinhas de Buda no jardim) e passei pelo Brique da Redenção, uma feirinha com milhares de barracas onde vendem artesanato e outras coisas que nem sei. Acho que dei a volta no parque. Difícil afirmar com certeza, considerando a minha desorientação espacial.

Voltei, tomei banho, cozinhei, almocei, li, dormi, arrumei umas coisas na quitinete (aqui chamam de "JK", não me peça para explicar, não faço ideia), respondi alguns e-mails - ainda falta responder vários. Foi um dia bom.

Quinta-feira passada começaram as aulas na oficina de escrita literária num laboratório de idiomas muito chique na PUCRS - vários computadores, cada aluno em um, lousa mágica, ar-condicionado, só a acústica da sala não é tão boa. Gostei muito da aula e, como diria uma amiga, "que bom, né, para compensar o XXXX [curso que fizemos e não foi exatamente UAU-NOSSA-QUE-CURSO!]", eu ri.

Nessa primeira aula, o prof. Assis Brasil falou um pouco sobre o curso, fizemos a apresentação de praxe, só eu de São Paulo. Minto. Acho que tem uma colega arquiteta aposentada que é de Campinas e vai fazer ponte aérea. Todo mundo de humanas. Nenhum açougueiro, nem engenheiro ou, sei lá, nenhuma bióloga, astróloga, meteorologista. Tem um colega advogado que disse que tinha largado o emprego porque queria seguir a vocação dele e realizar o sonho de ser escritor (nesse momento imaginei a cara de pelo menos metade da minha sala do MBA em Book Publishing, de alguns professores, de editores com quem trabalhei e a minha própria cara e ouvi uma voz na minha cabeça: "você cala a sua boca e não pensa nada", aí não pensei no mercado editorial no Brasil, em direitos autorais nem em nada, me concentrei no fato de que essa atitude de largar um emprego sem sentido para seguir um sonho, por si só, já é corajosa e admirável). Alguns colegas já se autopublicaram, outros ganharam concursos literários. Na minha vez, falei que era de São Paulo, que estava lá para melhorar minha escrita, minhas traduções e eventualmente trabalhar em uma editora de literatura e poder selecionar melhor os originais. Sinceramente, não me vejo "só" escrevendo. Quando e se isso acontecer, vai ser concomitante com tradução e/ou edição de textos. Às vezes penso que já existem muitos livros no mundo e não sei até que ponto eu conseguiria contribuir com algo relevante. Talvez não consiga - e tudo bem, não vou morrer por causa disso. Só o fato de escrever e traduzir melhor já me anima. O professor perguntou se eu ficaria em Porto Alegre, se tinha ido por causa do curso, eu disse que sim.

A aula seguiu, o professor comentou alguns livros da bibliografia e sobre a importância da construção de personagens. Fizemos um exercício e cada um definiu o/a personagem com que vai trabalhar nesse semestre. Não sei se escolhi direito, ainda posso mudar no próximo exercício, vamos ver.

Depois que acabou a aula, no elevador lotado (só cabem umas seis pessoas), o professor pediu para "dar uma palavrinha" comigo. No térreo, ele perguntou se eu já estava instalada, se estava bem, e falou que se precisasse de algo era para falar com ele, procurar a Bibiana (escritora que o auxilia nas aulas e com os e-mails para a turma) e terminou com "não te sinta só por aqui". Achei comovente. Em São Paulo, ninguém se importaria em falar algo assim, na verdade, ninguém parece se importar. A maioria das pessoas parece embrutecida, entorpecida, massacrada pelo cotidiano. Em certo momento, senti que também estava me tornando alguém assim para conseguir sobreviver. Não quero, por favor.

Lembrei de amigos que iam gostar muito de estar nessa oficina. E também desejei que todo mundo de que gosto eventualmente consiga fazer uma pausa na vida - antes que seja tarde demais, por n motivos -, para descansar, refletir e redirecionar a vida se for o caso. O clichezão "a vida é curta" é mesmo verdade. Acredite.

Não tirei foto do parque Farroupilha, então mando essa foto da Casa Mario Quintana, que é um dos meus lugares favoritos na cidade. Mesmo que no verão lá dentro pareça uma estufa porque não tem ar-condicionado. Aliás, a cidade toda está meio decadente, mesmo assim continuo gostando daqui.


Até semana que vem, espero,

Aline Naomi



Obs.: Na próxima carta conto um pouco sobre a minha vizinhança animada.

5 comentários:

Diego Krieger disse...

Vim comentar só pra te incentivar a continuar escrevendo!

Tati* disse...

Também espero que nos encontremos aqui semana que vem! Continua escrevendo ;)

aline naomi disse...

Diego e Tati, obrigada pelo incentivo!! :))

Pedro Mattos disse...

Aline minha cara,
Decidi me aventurar pelo seu mercado,mas não tenho qualquer experiência no mercado editorial. Como eu faço para entrar nele? Há alguma esperança?
Obrigado
Pedro

aline naomi disse...

Olá, Pedro.

Não sei dizer como anda o mercado exatamente, pois não estou atuando desde o ano passado, mas a partir de 2015, começou a ficar muito ruim. Agora, aparentemente, está melhorando (assim como a economia do Brasil em geral?).
Recomendo fazer cursos na área editorial e conversar com pessoas que atuam na área antes de abrir uma editora!
Em SP tem a Universidade do Livro (http://editoraunesp.com.br/unil) e a Escola do Livro (http://cbl.org.br/escola-do-livro) que oferecem bons cursos.