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quarta-feira, 28 de março de 2018

Carta de Porto Alegre nº 2

Porto Alegre, 27 de março de 2018 - terça-feira, 21h21


Caros amigos,

ontem foi feriado, aniversário da cidade, e eu não sabia. Minha mãe que me disse, porque viu na TV. Eu não tenho TV. Apesar de ter sido feriado, havia pessoas nas ruas e as lojas estavam abertas; até levei um edredom e um cobertor para a lavanderia, porque está começando a esfriar, só trouxe um edredom de São Paulo e essas cobertas que encontrei aqui estavam cheias de pó.

Continuo caminhando no parque Farroupilha quase todas as manhãs e agora não me perco mais; memorizei uma rota e sigo sempre por ela. Outro dia fui caminhar pela orla do rio Guaíba, quase cheguei ao estádio Beira-Rio (do Internacional), mas o sol ficou muito forte, então voltei. Talvez alugar uma bicicleta do Itaú e pedalar no fim da tarde seja uma opção melhor. A paisagem é estranhamente bonita. Vi um anfiteatro no meio do nada que parecia um cenário futurista e insólito. Perto desse anfiteatro alguém pichou: "Cada palavra tua é um arrepio!" - poético e matador. 



Às vezes, quando estou caminhando, penso em Caio Fernando Abreu ("Será que ele caminhava por aqui? Bebia naquele bar? Comprava livros naquele sebo?") e também no Yoñlu ("Será que ele fotografava aqui? Onde será que ele está agora?"). Caio F. é um dos meus escritores favoritos. "Yoñlu" era um estudante/ músico de Porto Alegre que se suicidou em 2006 - ele só tinha 16 anos. Vi um documentário sobre ele na Mostra Internacional de Cinema no ano passado, por acaso, para preencher o tempo entre um filme e outro que eu queria ver, e me surpreendi, me impressionei. Fiquei pensando nessa história por muito tempo, ainda penso. O tipo de música que ele fazia não me agrada, mas gosto de Waterfall.

No mais, estou feliz e provavelmente vou sentir vontade de chorar na hora de ir embora. Não sei como se pode gostar tanto de alguns lugares. Gostei daqui desde a primeira vez que vim com a Renata, uma colega da faculdade, em 2000. Fugimos de um congresso em Pelotas, pegamos um ônibus e viemos passar o dia aqui. Caminhamos pela cidade, comemos, vimos o sol se pôr no Guaíba, voltamos para Pelotas e senti saudade de alguma coisa que nem sei o que era. Se eu tivesse passado em jornalismo na UFRGS alguns anos depois, teria vindo morar um tempo aqui antes. Mas foi bom, no fim, não ter passado, não me vejo trabalhando com jornalismo. 

Aqui, moro no centro. Memorizei que, se subir, chego na Casa de Cultura Mario Quintana e no centrão, onde tem um comércio popular que lembra muito o Calçadão de São José dos Campos (almocei lá hoje, num ótimo restaurante vegetariano que eu e a Yuri descobrimos por acaso em janeiro). Se descer e virar à esquerda, chego num dos milhares de supermercados Zaffari que há na cidade e, se seguir em frente na rua do Zaffari e virar nos lugares certos, chego no parque Farroupilha. Se descer a rua de casa, chego no Guaíba. Há várias livrarias pequenas e sebos por aqui também. Tudo que me interessa está relativamente perto. Não tem como não estar feliz.

Ah, deixa eu comentar sobre meus caros vizinhos. O prédio onde moro tem pessoas de tudo quanto é jeito: velhos, novos, crianças, estudantes. E às vezes tudo é muito animado por aqui. As pessoas costumam falar muito alto e ainda não me acostumei. Tem um casal de vizinhos que costuma transar  vários dias por semana na hora do almoço (ontem, feriado, foi dia todo) e a mulher GRITA MUITO. Rio sozinha. E tem uma vizinha que vive tendo DRs (discussões de relacionamento) com o namorado/ marido/ amante dela, às vezes por telefone, às vezes pessoalmente, e grita absurdos, baixarias e palavrões. Pelo que entendi, o cara está com outra mulher e essa vizinha não aceita a situação, se humilha, enlouquece, se autodestrói. Não entendo as pessoas. Só sei que uma vez ela gritou: "TU SÓ GOSTA DAQUELA VAGABUNDA PORQUE ELA TE DESPREZA E TE CORNEIA" e tive a impressão de que, na verdade, ela estava falando dela mesma ("EU só gosto de TI porque TU ME despreza e ME corneia"). Talvez uma hora ela consiga se ouvir.

Quinta passada tive a segunda aula, ainda sobre construção de personagem, entre outras coisas, e continuo gostando muito da oficina. O professor projetou o texto de uma colega, com correções, e lemos. As correções e os comentários foram light. Talvez o professor tenha receio de canetar muito, nos assustar e bloquear nossa vontade de escrever. Me aproximei de uma colega que também é tradutora e mora no Paraná. Me ofereci para visitar uns JKs com ela semana que vem, porque ela está procurando lugar para ficar.

Domingo foi o prazo para entregarmos um texto em que a personagem que criamos precisava ir a uma galeria de arte. Enrolei muito para entregar porque minha personagem é cega e eu não tinha ideia de como resolver o problema. O texto ficou ruim, mas precisei entregar mesmo assim. Vou me esforçar mais no próximo exercício. O segredo deve ser escrever e só voltar ao texto depois de um tempo mesmo.

Preciso dormir agora. Amanhã, outro dia, quero matar mais algumas pendências.



Até breve,

Aline Naomi



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