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terça-feira, 3 de abril de 2018

Sal, açúcar, gordura, de Michael Moss (2/365)



Há algum tempo terminei de ler Sal, açúcar e gordura, do jornalista americano Michael Moss e fiquei ainda mais estarrecida com a indústria de alimentos.

(Na foto, coloquei o e-book no meio de um monte de gordices como provocação. A maioria desses doces veio em caixas de um "clube de doces" que eu tinha assinado para a Yuri e não assino mais. Todo mês chegava uma caixa cheia de doces importados, principalmente chocolates, que não conseguíamos comer. Achei que seria legal provar doces diferentes, mas, no fim, não fazia muito sentido.) 

Como ainda tenho interesse por alimentação e saúde, continuo vendo e lendo sobre esses assuntos.

Esse livro foi importante para entender um pouco mais a fundo como a indústria de alimentos processados funciona. Eu já tinha visto vários documentários na Netflix (Food Matters, Forks over Knives, Cowspiracy, Food Choices, Fed Up, What the Health, entre outros) que me fizeram pensar sobre a nossa relação com os alimentos e como isso pode nos trazer benefícios ou, pelo contrário, nos deixar doentes. Concluí que a alimentação é uma questão de hábito também.

Hoje em dia parece que as pessoas "comuns" (sem ser especialistas em saúde ou em alimentação) estão cada vez mais conscientes de que uma alimentação equilibrada é a chave para ter mais saúde ou evitar doenças. Por exemplo, vejo primas e amigas que não dão refrigerante para os filhos - isso já é  um começo, um indício de que as coisas estão mudando. Só que ninguém diz para essas mesmas mães que dar suco ou chá pronto ou Toddynho talvez seja a mesma coisa que dar refrigerante, considerando a quantidade de açúcar que adicionam nessas bebidas. 

O livro é dividido em três partes: açúcar, gordura e sal. Três ingredientes essenciais para a indústria de alimentos processados e que, muitas vezes, geram compulsão alimentar (quem não conhece pelo menos uma pessoa viciada em chocolate, sorvete, queijos, Ruffles ou Doritos?; eu, por exemplo, sou uma ex-viciada em sorvete). Pelo que entendi, quanto mais açúcar, sal e gordura a gente consome, mais quer consumir, independentemente de estarmos com fome ou não. O corpo fica dependente dessas substâncias. Também fiquei pensando que essa compulsão é gerada por um estilo de vida louco e estressante das grandes cidades - a comida é uma das válvulas de escape (beber e fumar, algumas outras) para todo o estresse do dia a dia... as pessoas comem mais para se dar prazer do que para se alimentar. Deprimente, não?

Há muitas histórias interessantes sobre refrigerantes e alimentos processados lançados nos Estados Unidos, sobre como as empresas gastam bilhões em campanhas publicitárias e estimulam novos "usuários" (como os executivos costumam se referir a consumidores de refrigerante) a consumirem esses produtos. Tem uma parte em que o autor fala sobre a promoção da Coca-Cola no Brasil que me deixou perplexa. A marca precisava aumentar as vendas por aqui e algum executivo teve a ideia de produzir garrafinhas de Coca-Cola que custassem R$ 1, assim camadas mais populares poderiam comprar a marca "Coca-Cola" pagando pouco. É cruel pensar que essas pessoas, as mais vulneráveis, não vão conseguir pagar tratamento médico adequado depois.

Outra coisa óbvia, mas que nunca tinha passado pela minha cabeça: a indústria sempre vai optar pelas matérias-primas mais baratas para maximizar os lucros, não importa o quanto isso afete a saúde dos consumidores. Em suma, nem sabemos, de fato, o que estamos comendo.

Essa onda de alimentos processados começou, se não me engano, na década de 1970, quando cada vez mais mulheres americanas passaram a trabalhar fora e não tinham muito tempo para preparar as refeições. E o preço dessa conveniência é alto: obesidade e doenças associadas a ela. O que me anima, de certa forma, é que, aos poucos, as pessoas estão se conscientizando de que esses alimentos processados não prestam e que não deveríamos sustentar esse tipo de indústria. Pelo menos é a minha impressão. O bom é que a TV e a internet estão ajudando nesse processo. Sigo um canal no YouTube chamado Cozinha Bach, da nutricionista gaúcha Simone Bach, que é ótimo. (No lado oposto do espectro, também sigo o Guia de Sobrevivência Gastronômica em Porto Alegre, em que os youtubers costumam comer bastante junk food -, mas esse canal começou a me dar angústia, aí parei de ver; fiquei pensando que qualquer hora ia ver um vídeo falando que o canal acabou porque membros do grupo tiveram um infarto de tanto comer fritura, doces e embutidos.) Também sigo o Panelinha, da Rita Lobo, e assino a newsletter dela, que sempre têm dicas ótimas para fazer comida fácil e boa.

Talvez para a maioria das pessoas tudo que escrevi (e o que o Michael Moss escreveu) seja uma grande besteira. Mas esse movimento de as pessoas se alimentarem de um jeito mais saudável, com menos alimentos processados, faz muito sentido para mim. E o fato de os executivos das grandes empresas de alimentos não consumirem os produtos que ajudam a produzir (todos falaram isso em entrevistas com o autor do livro) já deveria servir de alerta.

Por fim, indico essa entrevista que a Folha de S. Paulo fez com o Michael Moss em dezembro de 2015, alguns meses depois de o livro ter sido lançado no Brasil. 


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