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sexta-feira, 4 de maio de 2018

Carta de Porto Alegre nº 4



Porto Alegre, 3 de maio de 2018.

Queridos amigos, 

estou bem, mas com saudades (várias). E também ansiosa porque amanhã volto para São Paulo por uma semana, depois de quase dois meses.

Como faz quase um mês que não escrevo, aconteceram muitas coisas que gostaria de contar. E também estão acontecendo outras coisas dentro de mim que ainda não sei explicar direito.

A foto acima é de uma área/ praça perto do Gasômetro, um dos cartões postais da cidade, que foi reformada e ficou lindo assim. O Gasômetro mesmo está fechado para reformas. Uma pena porque eu gostava de subir lá para ver a paisagem/ tirar fotos.



Bom, por aqui, continuo caminhando no parque todos os dias e comecei a CORRER semana passada. Quase morri, mas completei uma volta ao redor do parque Farroupilha. Agora tento alternar dias de corrida com dias de caminhada, senão minhas pernas e joelhos não aguentam. Também continuo bastante rigorosa com a alimentação (cortei açúcar, fritura, queijos, menos o branco, quase todos os carboidratos, a maioria dos produtos industrializados), porque depois que o endócrino terroristinha disse que eu provavelmente teria diabetes, fiquei assustada. Imagina ter que aplicar insulina na barriga todos os dias? Filme de terror. Não vai acontecer comigo. Amanhã desembarco e vou direto fazer exames de sangue - estou curiosa para saber se a glicemia diminuiu e se a anemia desapareceu. Semana que vem tenho consulta com o dr. Terroristinha.

Essa semana eu deveria ter levado as roupas de cama, toalhas e roupas para a lavanderia, mas fiquei enrolando e não fui. Quando eu voltar, preciso fazer isso. Perto de onde moro tem várias lavanderias e algumas são "self-service" (a gente coloca a roupa na máquina e aguarda - fui em uma dessas; cada lavagem dura 35 minutos e custa acho que R$ 18; fiquei lendo um livro do Murakami enquanto esperava). Quando passo perto de algumas lavanderias sinto um cheiro muito bom de amaciante. Quando eu não estiver mais aqui e sentir esse cheiro, ele talvez tenha o mesmo efeito que as madeleines tiveram para aquele personagem do Proust. 



"Descobri" que tem uma cinemateca chamada Capitólio a dez minutos de casa. Lá aconteceu um evento muito legal chamado "Porto Alegre Noir" (dica da Adriana), com bate-papos e filmes com a temática policial/ noir. Fui assistir a um bate-papo e um filme num sábado e gostei. No bate-papo vi a Carol Bensimon (é legal ver pessoalmente escritores que escrevem livros que gosto de ler).


Uma coisa curiosa que vejo quando ando por aqui e em bairros próximos são uns cartazes que parecem me perseguir. A maioria fala sobre "aproveitar a vida". Ok, universo, não precisa ficar me lembrando disso o tempo todo, depois de ter câncer, isso é bastante óbvio para mim. :)




Fui ver quatro filmes mês passado: A livraria (não gostei muito), Minha amiga do parque (é tenso; misto de drama, suspense e comédia com humor sombrio), Baseado em fatos reais (fui ver com a Carol e achamos mais ou menos, com final meio preguicinha) e Severina (o melhor dos quatro, na minha opinião; nele, uma garota rouba livros e um dono de livraria se apaixona por ela, mas, no fim, não dá para saber se se ela realmente existiu).

Numa sexta, às 7h30 da manhã (!), encontrei um "amigo virtual" pessoalmente depois de uma década e meia numa padaria uruguaia chamada Mercopan. Era o único horário viável para ele e, como estou à toa, para mim não foi problema. Pedi uma medialuna recheada que estava ótima. Quero voltar lá para provar os doces. Esse encontro foi ótimo e me fez refletir sobre uma série de coisas. Sou bem cética, mas às vezes tenho a sensação de que as pessoas certas aparecem na hora certa para falar o que precisamos ouvir. Obrigada a esse amigo pela conversa e pelo ótimo café da manhã!



Mês passado também fui à Livraria Taverna, que fica do lado de casa, para o lançamento da segunda edição do livro Andarilhos, do Rodrigo Tavares, um colega da oficina de escrita. Outros colegas também foram e foi bem legal. Estou curiosa para ler porque o cenário é o pampa gaúcho - não lembro de ter lido nada parecido. Vou levar para ler em São Paulo.

Vitor, eu, Rodrigo, Valentina e Roseane

Hoje passei lá na Taverna de novo para comprar Cólicas, câimbras e outras dores, do Michel de Oliveira, outro colega da oficina. Fiquei boquiaberta com um conto/ texto que ele leu em aula e quis escrever como ele algum dia na vida. Ele tem um estilo muito clean, conciso, preciso, enxuto, que é o que gosto de ler e também procuro escrever. Sei que parece mentira, porque sou muito verborrágica em e-mails pessoais e  posts para o blog, mas quando estou escrevendo ficção, tendo a ser enxuta (o prof. Assis até comentou num feedback que preciso escrever mais nos exercícios, mas a sensação de estar sendo verborrágica e entediante me faz querer escrever textos muito curtos). O livro do Michel também vai comigo para São Paulo. Depois vou querer que ele escreva uma dedicatória para mim. Michel é ótimo; disse que quando terminar o freela dele, podemos marcar de sair.

Sábado passado eu e a Roseane, tradutora e colega da oficina, fomos ver o Vaudeville Show #3, no bar/ lounge Von Teese, porque a Patricia, que conheci pelo Okcupid (um site de relacionamentos onde já tinha feito alguns amigos em São Paulo há uns quatro anos), disse que se apresentaria lá. A Patricia veio de Brasília para um mestrado em antropologia e depois acabou se apaixonando por dança, canto, performances, é uma pessoa incrível. No sábado ela cantou a cappella e fiquei maravilhada com a voz dela. A Roseane também gostou. Além da apresentação da Patricia, vimos artistas de sapateado, dança, números circenses. Amei o lugar e essas apresentações. Quero voltar. Quero levar a Yuri, a Tati e a Crisinha lá quando elas vierem me visitar.


Essa é a Patricia! :)


Segunda-feira passada fui passear e tomar chimarrão - na verdade, só experimentei :) - na Praia de Ipanema (não é praia, só parece, porque tem areia e depois o rio/ lago/ estuário Guaíba) com a Ale(ssandra), que conheci pelo Tinder e com quem já tinha ido jantar na Casa de Cultura Mario Quintana na semana anterior. E lá a gente encontrou a Lilian (Ly), que também conheci pelo Tinder. Hahaha. Essa coisa de Tinder foi insistência de uma amiga de São Paulo e de um amigo daqui (ele disse que conseguiu fazer algumas amigas pelo Tinder; aí pensei algo do tipo: "Se ele consegue, eu também consigo!" e entrei lá). Na primeira vez, não aguentei, me senti um pedaço de carne pendurado no açougue e tinha a mesma sensação sobre as pessoas que eu via ali. Na segunda vez eu já estava mais "vacinada", parece, e comecei a ler os perfis, dar "likes" e a coisa começou a fluir. Consegui uns "match" e estou conhecendo pessoas muito legais. Minha amiga de São Paulo disse que tenho sorte, porque, em geral, o nível das pessoas e das conversas é muito ruim. O perfil dos caras, em geral, é bem duvidoso -  fotos deles sem camisa acho uó.


Essa experiência em Ipanema foi muito legal, porque é uma coisa muito cultural daqui. O povo vai pras praças, parques, beira do Guaíba (às vezes levando cadeiras de praia) preparar e "tomar um chimas" e conversar com amigos - vivenciei isso e gostei. 

Queria ter visto o pôr do sol ali, mas começou a chover e tivemos que ir embora, ainda mais que a Ly estava de moto. Daí a Ale me levou na Floricultura Winge, onde tem um café/ restaurante "muito tri", pedimos umas coisas para comer e ficamos ali conversando mais um pouco.


A Ale também passou por uma experiência de câncer (bem pior que a minha), então a gente tem uma percepção muito parecida sobre o tempo e a vida. Tudo é muito frágil e pode mudar a qualquer momento, então tentamos aproveitar o que temos agora - porque talvez seja tudo o que temos mesmo. 

Nunca imaginei que entraria no Tinder para fazer amigos (para vocês terem noção do meu desespero em socializar... haha!), mas está sendo uma experiência muito melhor do que eu imaginava. Não sei de que outra forma eu conheceria essas pessoas que estão me acrescentando tanto. Não me acho uma pessoa supersociável - em geral, sou bem na minha -, mas comecei a me sentir muito forever alone por não ter com quem conversar pessoalmente por dias... achei isso uma loucura porque quando eu estava em São Paulo, às vezes pensava: "Queria morar numa caverna, longe da civilização, só para não ter que interagir com outras pessoas!". Rá. Preciso socializar, sim. Preciso ter contato humano, sim. E isso é uma lição também: tendo amigos em São Paulo, não me esforçava muito para fazer novos amigos, porque os antigos já são incríveis... aqui, como não conheço muita gente, estou muito mais proativa nesse sentido. Sair da zona de conforto é bom.

No próximo dia 19, um grupo de falantes de inglês vai se reunir em um café e me inscrevi para ir. Um amiga indicou o site Meetup, em que grupos de pessoas com interesses comuns se reúnem em várias partes do mundo e escolhi entrar nesse grupo de inglês porque para mim não havia tantas opções (a maioria dos grupos é de programadores). Acho que vai ser interessante.

Por último, tem alguma mudança acontecendo em mim que ainda não consigo explicar. Parece que uma leveza está se instalando, uma aceitação das coisas como elas são e de que, de uma forma ou de outra, a vida vai acontecer e vai ser melhor se eu conseguir lidar com os acontecimentos com essa leveza.

Também fiquei pensando que existem dois tipos de pessoas no mundo: as que me dão vontade de viver e as que me dão vontade de morrer. Preciso ficar perto de pessoas que me dão vontade de viver porque, se eu ficar perto de pessoas que dão vontade de morrer, alguma coisa também começa a morrer em mim, até a vida começar a perder todo o sentido e chegar ao ponto em que viver ou morrer, "tanto faz". As pessoas são um dos nossos vínculos com a vida e estou me esforçando para ser uma pessoa que dá vontade de viver. 

Me sinto muito grata por tudo.

Boa sexta e bom finde para vocês e boa viagem para mim! :)


Aline Naomi


2 comentários:

Unknown disse...

Boa viagem e bem-vinda a SP. Esteja bem, sempre.

aline naomi disse...

Obrigada, stranger, seja lá quem for! :)