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quarta-feira, 4 de julho de 2018

Canção de ninar, de Leïla Slimani (5/265)



Não lembro como cheguei a Leïla Slimani, uma autora franco-marroquina, mas lembro de ter lido uma entrevista em que ela contava que se baseou em uma história verídica, ocorrida nos Estados Unidos, para escrever Canção de Ninar (Chanson douce, no original) e fiquei impressionada. Nesse livro, que ganhou o Prêmio Goncourt, ela conta a história de uma babá que assassina duas crianças de que cuidava. Quis muito ler, mas o livro ainda não tinha sido publicado no Brasil e seria caro comprar o livro importado. Um tempo depois, a Tusquets o lançou e a edição está muito bem cuidada.

O choque já vem na primeira página, na primeira linha: "O bebê está morto. Bastaram alguns segundos.". Essa cena inicial prossegue por mais duas páginas e, no fim, lemos "Adam está morto. Mila não vai resistir". 

Gostei muito da forma como a autora trabalha a personagem principal, Louise, a babá. Slimani vai mostrando, pouco a pouco, quem é Louise, além de seu papel como a babá perfeita, e se aprofunda nisso. Os personagens secundários são a família: Myriam, a mãe, que volta a trabalhar como advogada um tempo depois de dar à luz ao segundo filho; Paul, o pai e produtor musical em ascensão; Mila, a primogênita, um pouco mimada, mas educada; e Adam, o bebê. É perturbadora a forma como Louise vai se entranhando na família até a história culminar no trágico final.

Gostei da forma como a autora descreve a relação entre patrões e empregadas; há cenas em que ela apresenta babás estrangeiras, algumas em situação ilegal em Paris, no parque com as crianças de que cuidam, e como é essa relação.

Além da babá e empregada perfeita que Louise era, ela também tinha muitas outras facetas que os patrões sequer imaginavam. O que me fez pensar em algo que li no fotolivro da Vivian Maier, algo como: "O que as pessoas fazem quando não estão trabalhando?". As pessoas podem fazer coisas extraordinárias com o tempo livre ou não fazer nada, não ter condições e nem vontade de fazer nada e só ficar remoendo angústias.

Talvez um ponto fraco (?) na escrita de Slimani seja a forma com que ela trata os personagens menos importantes na história (a mãe de Paul, o locador do apartamento em que Louise morava e alguns outros), dando-lhes um peso maior do que o necessário. Isso não chegou a me incomodar, porque ela descreve os personagens muito bem, não é algo monótono nem nada, mas eu ficava me perguntando se isso era mesmo necessário - contar sobre essas pessoas quando poderia se concentrar mais em Louise ou nos membros da família.

De qualquer forma, é um livro perturbador e fascinante. Qualquer mãe que o leia vai pensar mil vezes antes de deixar os filhos com a babá.

***

Trecho inicial (p. 9):

"O bebê está morto. Bastaram alguns segundos. O médico assegurou que ele não tinha sofrido. Estenderam-no em uma capa cinza e fecharam o zíper sobre o corpo desarticulado que boiava em meio aos brinquedos. A menina, por sua vez, ainda estava viva quando o socorro chegou. Resistiu como uma fera. Encontraram marcas de luta, pedaços de pele sob as unhas molinhas. Na ambulância que a transportava ao hospital ela estava agitada, tomada por convulsões. Com os olhos esbugalhados, parecia procurar o ar. Sua garganta estava cheia de sangue. Os pulmões estavam perfurados e a cabeça tinha batido com violência contra a cômoda azul."


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