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quarta-feira, 4 de julho de 2018

Hoje eu venci o câncer, de David Coimbra (4/265)



Estou lendo bastante, mas meio sem ânimo para escrever sobre os livros aqui. Decidi postar um resumo de algumas linhas no Instagram no dia do término da leitura e depois escrever melhor aqui. Por isso, nesse primeiro momento, as postagens sobre livros não vão seguir a ordem de leitura. (Quero escrever sobre livros que li no começo do ano quando possível, mas vou numerando as leituras conforme for postando mesmo.)


***

A Aly me emprestou esse livro do jornalista gaúcho David Coimbra há mais ou menos um mês. Ela ganhou de presente de aniversário do irmão mais velho dela, leu, gostou e me emprestou. A Aly teve um câncer de mama há seis anos, o David Coimbra foi diagnosticado com câncer nos rins com metástases no fim de 2013. Os casos deles foram muito mais graves que o meu, mas sinto que independentemente da gravidade, a experiência com o câncer nos transforma - em geral, para melhor.

No livro, David conta que descobriu o câncer "por acaso", quando foi para o médico ver o que era uma dor no peito, por meio de exames chegou-se ao diagnóstico de câncer. Os médicos não tinham um prognóstico bom, mas uma rede de contatos entre médicos foi ativada e, no fim, ele acabou indo para Boston para participar de uma pesquisa com um medicamento novo. Sua esposa e o filho pequeno também se mudaram para lá alguns meses depois. Aliás, em algum momento, ele diz que inicialmente o livro foi pensado para que o filho se lembrasse dele depois que ele partisse, mas que bom que ele não partiu e está vendo o filho crescer.

Apesar do assunto pesado, a história é contada com leveza, mesclando histórias profissionais e pessoais (como, por exemplo, sua infância pobre em uma casa na av. Assis Brasil e o abandono da família pelo pai), além de histórias sobre e com amigos (gostei da homenagem; ele nomeou os amigos para que eles ficassem, de alguma forma, imortalizados) e crônicas publicadas no Zero Hora, onde ele tinha ou tem uma coluna.

Com exceção de uma crônica com um tom machista ("O que o homem gosta na mulher"), gostei da forma como ele conta tudo. Sobre a crônica, leiam esse trecho (p. 19):

"Uma modelo é muda. Não está acostumada às palavras. Logo, não está acostumada a raciocinar. Quando ouço a Gisele Bündchen falando, estremeço. Sinto que há alguma coisa errada ali. A voz dela não passa confiança, sei que ela não está pensando no que fala, que é tudo ensaiado. Muito esquisito. Não, não procure mulheres de espírito entre as modelos.

[...]

As atrizes, sim. As atrizes têm de ler e compreender textos. Ou seja: elas precisam pensar. Então, você pode encontrar mulheres belas e de espírito entre as atrizes."

Alguém que coloca todas as pessoas de uma profissão num mesmo saco e as julga "incapazes de raciocinar" e recomenda que os caras procurem atrizes para se relacionar deve ter um lado meio leviano, né? Just saying. A favor dele, há outras crônicas bonitas e tocantes. A forma como ele fala do filho pequeno é comovente.

***

Trechos:

p. 82

"O papel do jornalista é contar como o mundo muda. Assim, de certa forma, ele ajudará a mudar o mundo."

p. 103

"[...] O fato é que o câncer desperta solidariedade mesmo, e não só em mineiros. As pessoas pensam que você vai morrer em seguida e passam a tratá-lo como um cadáver virtual, uma espécie de pré-morto. É muito bom. As pessoas ficam gentis e tolerantes. Não dão mais importância às coisas sem importância, enxergam mais o que você tem de bom do que o que tem de ruim, exaltam suas qualidades e esquecem seus defeitos."

p. 149 e 150 (final da crônica "Para sempre. Nunca mais." da qual eu gostei!)

"[...]
Se morasse nessas distâncias, quanta saudade não sentiria? Por coincidência, quando vagava nesses pensamentos, minha amiga Mariana Bertolucci mandou-me uma mensagem do outro lado do Atlântico: "Que saudade da nossa antiga turma do Lilliput". Lembrei-me então que, naquela época, em algum momento em que, por algum motivo, ela nos negligenciou, eu lhe disse: "Mais tarde, vamos nos separar para sempre, e tu vais sentir saudades".
Tantos anos depois, e minha profecia daquela noite se cumpriu. Nos separamos para sempre, e ela sente saudade. Para sempre. Nunca mais. As pessoas não acreditam, mas a vida é cheia de para sempre e de nunca mais. Se morasse aqui, quantos para sempre e nunca mais acrescentaria na minha vida? Quantos estou acrescentando nesse instante, mesmo sem morar aqui? Pessoas que vou perder e que vão me perder para sempre. Sentimentos que nunca mais voltarão. Pensar nisso me deu certa melancolia. Olhei a neve lá fora. Estremeci. Pedi outro Bourbon. Caubói, é claro."

p. 182 e 183

"[...] Aprendi que não devo e não posso ficar preocupado com o futuro. Tenho de me preparar para o futuro, mas não me afligir com ele. Até porque o futuro não chega nunca. Quando chega, se transforma em presente. Aí, haverá outro futuro com que se incomodar."

p. 198

"Poder caminhar, poder levantar algum peso, poder dormir em qualquer posição. É assombroso como atividades mínimas da existência, para as quais não damos a menor atenção, fazem diferença para você se sentir bem e feliz."


Como escrevi outras vezes, a experiência com o câncer transforma as pessoas. Para mim foi marcante, pois sinto que consigo aproveitar muito melhor o presente agora. A noção de tempo se tornou muito mais palpável - tento viver o máximo que posso, dar o meu melhor e ter as prioridades sempre em mente; sou muito "ativa", quero fazer e aprender a fazer milhares de coisas, mas sei que não terei tempo para tudo isso (mesmo se eu vivesse até uns 100 anos!). 

Por fim, esse livro me inspirou a escrever um relato sobre a minha experiência também, para não esquecer, embora já tenha esquecido muitas coisas - mas não pretendo postar, no máximo, vou compartilhar com pessoas próximas. A Babu já tinha me dado essa ideia há alguns meses. Ainda ando com uns bloqueios de escrita e ela sugeriu que, se eu escrevesse sobre uma experiência pessoal, seria mais fácil - de fato, né? Não é difícil escrever sobre algo que aconteceu com a gente... ou pelo menos isso é bem mais fácil do que inventar histórias fictícias "do nada".



2 comentários:

Karen disse...

Oi, se um dia escrever sobre sua experiência, compartilhe-a comigo também. Abraços!

aline naomi disse...

Oi, Karen!
Quando eu escrever, te mando, sim! ;)
Abraço!